A céu aberto
- Revista Trajanos
- 7 de ago. de 2021
- 3 min de leitura
Por Renata C. L. Miccelli
“De onde eu estiver, quero enxergar
esse momento em que você vai constatar
que a vida vale grandemente a pena”
Hoje é um daqueles dias que certamente eu me disporia a falar de amor.
O cotidiano ilimitado a rotinas intermináveis, à corrida contra o tempo, não nos permite, às vezes, refletir sobre os acontecimentos, ruminar os sentimentos, reencaixá-los e senti-los por inteiro. Cabe-nos apenas os meios, as metades, o “deixa pra lá”, o “depois eu penso nisso”.
Mas hoje é um daqueles dias que certamente, na brisa fresca de um domingo qualquer, eu me disporia a falar de amor, a falar da dor, a falar do dia a dia e, quem sabe, ler uma poesia.
Flora Figueiredo, em Amor a céu aberto, com uma linguagem contemporânea, reúne uma coletânea de poemas cotidianos, com reflexões e sentimentos que, na pressa, deixamos passar, guardando-os no fundo da gaveta da memória.
“[...] utiliza o poro aberto para deixar entrar o pólen certo; a veia perfumada, para fazer sair a coisa errada; o pulmão dilatado para tocar o ar que está viciado”.
Até aquele “resto de manhã, que acorda com perfume de roseira, saborosa de alecrim”. Há quanto tempo você não o sente? Há quanto tempo não percebe as cores, não sente as texturas sob os pés descalços?
Flora, em suas palavras delicadas e sensíveis, nos faz refletir, lembrar e sentir. Nos faz “supervivos” em suas linhas, “utiliza o poro aberto para deixar entrar o pólen certo; a veia perfurada, para fazer sair a coisa errada; o pulmão dilatado para tocar o ar que está viciado”.
Entre cadeiras de balanço, despedidas, beijos e demoras, a poeta molda suas palavras com uma percepção sensível aos acontecimentos. Organiza-as de forma a organizar os nossos sentimentos. De forma a falar o que nos está trancafiado, o que deixamos “do lado de fora”.
Entre “a vida competindo, o corpo envelhecendo, a alma duvidando”, sabendo “que a esperança, por prudência, está dormindo” a portas fechadas. Portas essas que escondem “um sonho remoendo, um plano insistindo, um sorriso esboçando”.
Portas que insistimos em fechar, pois é mais fácil apenas viver. É mais cômodo deixar “a lágrima secar no arame do varal”, fechar “a agenda”, adiar “o problema”, guardar “insucessos no fundo da gaveta”.
A verdade é:
Sentir nos assusta.
Viver nos assusta.
Lidar com o sentir e o viver e suas consequências nos assusta.
Mas, em nós, arde um desejo natural de sentir e viver, o qual, em algum momento, implode. E para quê? Para nos provar que estamos vivos, “não importa se é caminho complicado, se a curva é reta, ou se a reta entorta”.
“Se tiver que ir, vai”.
Para uns, vive-se apenas uma vez. Então é melhor sentir-se por inteiro, não por metades, não é mesmo?
E, sinceramente, “você não precisa mesmo fazer nada”.
“Basta estar”. Basta sentir. Basta viver.
“[...] você não precisa mesmo fazer nada. Basta estar”.
Figueiredo diz-nos que “o coração do poeta tem bordas flácidas. Ele derrama, vaza, descamba”.
Eu, em domingos como este, desejo mais e mais o coração e a alma dos poetas. Talvez numa ânsia de querer sentir. Querer derramar, vazar, descambar.
“Só o que posso é me entregar completamente a toda causa que eu me dedicar, a cada tempo que eu puder viver, a cada amor que me fizer amar”.
Livro

Amor a céu aberto, Flora Figueiredo. 2. ed. Novo Século, 2010. 79p.
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