Impropérios – poesia de Luciana Martins [Escreva como uma garota]
- Revista Trajanos
- 5 de abr. de 2021
- 2 min de leitura
Atualizado: 3 de mai. de 2021
Por Bárbara Martins
Você se importa de ler algo sórdido?
(Ana Cristina César)
Denúncia. Protesto. Realidade. São algumas palavras que me vieram à cabeça enquanto lia pela primeira vez o livro de Luciana Martins. Impropérios foi publicado em 2019, pela editora curitibana Kotter Editorial. Os seus poemas dilaceram a misoginia e o racismo estrutural. Denunciam a violência contra corpos marginalizados e outras injustiças sociais. Também rejeitam a truculência do atual governo, cujo flerte com o fascismo está cada vez mais escancarado. Doloridos como um golpe e tão urgentes quanto o agora, os poemas são tão bons que se torna impossível parar a leitura até chegar-se ao fim.
A começar pelo título, em uma pesquisa rápida, Impropérios significa discurso ofensivo, de ódio; insultos; ações e comportamentos que têm o intuito de ofender, ou ainda, aquilo é impróprio. Seriam então seus poemas impropérios destinados a alguém? Na verdade, a poeta, com maestria, faz dos impropérios proferidos pelo atual governo e reforçados por uma sociedade que se recusa a mudar, a matéria-prima de suas composições.
O poema que dá abertura ao livro, “Mulher fenomenal”, me espantou já em sua primeira estrofe:
Sorria
você está sendo
estuprada.
Espantou porque são versos verdadeiros e pesados, a ponto de destruir qualquer possibilidade de esconder a realidade. O poema segue:
Sorria
você está sendo
assassinada
pelo teu ex
pelo teu marido pastor
pelos amigos boyzinhos do seu irmão
pelos filhinhos de papai
pelos cidadãos de bem do nosso país
Este poema é difícil de ler, mas fica mais difícil ler a lista de nomes, em ordem alfabética, de mulheres que sofreram violência dessa cultura de estupro:
ana claudia de melo
ana cristina camara santos
ana lídia braga
ângela maria fernandes diniz
araceli cabrera sánchez crespo
cláudia lessin rodrigues
daniela bispo dos santos [...]
Os versos seguem revivendo as memórias daquilo que procura ser esquecido.
Além do impacto verbal que os poemas de Luciana causam, as ilustrações do livro, feitas por Amanda Guerrero, combinam o diálogo entre imagem e texto. São desenhos que parecem ter sido criados ao mesmo tempo da composição poética. Há quem diga que o livro é um HQ lírico-épico-satírico, eu diria que a combinação ilustração-poema o torna poético realista fantástico latino-americano, se não fosse o “quase”. Isso porque dentro dos poemas e desenhos, os elementos do que é real, soam como um delírio, uma ficção impossível, absurda.
Quanto à forma, os poemas perpassam desde haikais a aforismos e “odes” ao pequeno “mito” da presidência, e alguns, chegam a lembrar a poesia dos Slams. A composição formal, à primeira vista, pode parecer sem intenções muito claras, afinal, por que escrever um haikai e depois uma ode? Não são poemas soltos, tão pouco sem intenções. A variedade da forma dialoga diretamente com o grito dos poemas pelo direito à liberdade de expressão e à diversidade, seja poética ou social.
Depois de visitar esses poemas, sei que é um livro feminista, antirracista, antifascista, e mais do que isso, é necessário ser lido com urgência.
Título: Impropérios
Autora: Luciana Martins
Editora: Kotter
Ano de publicação: 2019
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